Agenda CulturalRio de Janeiro - RJ

Exposição Negativa Luz Negra em Niterói grátis

38views
Exposição Negativa Luz Negra em Niterói grátis
A exposição Negativa Luz Negra é composta por dez fotografias e um vídeo-arte. As fotos,
medindo 1,60m de altura, retratam pessoas negras da Bahia e do Rio de Janeiro. Coladas em papel-
adesivo na parede, e recortados na silhueta, os corpos inteiros desses homens e mulheres em
negativo, brilham, iluminados por uma luz negra dentro de um quarto escuro, hermeticamente
fechado. Para chegar lá, percorremos um curto labirinto em zig-zag. Ao lado de cada fotografia,
vemos a árvore genealógica de cada um deles, até onde eles lembram: a maioria só conhece os pais,
alguns os avós, mas ninguém vai muito longe na lembrança dos antepassados.
O objetivo desse trabalho é gerar uma reflexão sobre a memória e sobre o lugar que as
pessoas negras ocupam na sociedade e na arte brasileira. A ideia é que essa exposição traga à luz
essa constante negativização histórica das pessoas negras em nosso país, mas invertendo-a,
revelando corpos negros anônimos brilhando, explodindo luz, e sendo os grandes protagonistas.
A experiência de ficar meio cego, penetrando no negro labirinto da memória unida ao som
do vídeo-arte, que ecoará por todo o quarto escuro, proporcionará uma vivência sensorial
sinestésica ao público que visitar a exposição.
As fotos são de pessoas da Bahia e do Rio de Janeiro porque eram nesses locais que estavam
localizados os principais portos onde chegavam os negros africanos escravizados na época da
colônia. Graduada em História pela Puc-Rio e em Montagem pela EICTV, a Escola de Cinema de
Cuba, as fotografias são de Lívia Uchôa, cineasta independente.
 
Texto curatorial:
As imagens de Lívia Uchôa buscam resgatar a vitalidade anônima, a ancestral força, a
inquebrantável alma que quase trezentos séculos de escravidão não puderam fazer curvar homens
e mulheres negras, que tanto contribuíram culturalmente para a formação do povo brasileiro, mas
que tão poucas vezes foram dado voz como protagonistas.
A estética da fotógrafa vem justamente marcar essas silhuetas, acentuar esse não dito, dar luz ao
que querem ocultar. Revelando esses corpos fosforescentes de luz e potência, há todo um mar de
gestos não resignados, que dançam, cantam, riem e observam, trazendo à luz o que a sociedade
nega. Lívia age como que diante de um microscópio, dando brilho ao que querem escuro,
iluminando os meandros negros de dois estados de nosso país: Bahia e Rio de Janeiro.
As dez fotos da exposição Negativa Luz Negra nos convidam a adentrar a câmara escura do
passado afro-brasileiro. Essa imersão em território de violência e esquecimento, marginalização
e holocausto, faz-nos amargamente refletir no papel que as artes institucionalizadas reservam
para esse grande alicerce da cultura nacional. Reflexão que coloca o expectador sensível em uma
situação de embaraço e incômodo, para entender todo o processo discriminatório por qual passou
toda uma nação.
Glauber Lauria
 
Texto plotado na parede da exposição:

Conhecer o passado é conhecer a si mesmo. No caso de nós, descendentes de negros, nossas raízes são desconhecidas. Qual a etnia de meu bisavô, negro escravizado que veio da África?

No labirinto da memória, há coisas que guardamos na lembrança e no esquecimento. Na construção da História oficial de um país, há memórias que são jogadas à luz e outras esquecidas na escuridão. Até hoje tratados como minoria, assassinados, marginalizados e negativizados, os negros continuam com sua história ocultada e pouco valorizada.

Essa exposição vêm trazer à luz essa constante negativização histórica das pessoas negras em nosso país, mas pretende invertê-la, fazendo os pretos literalmente brilharem, refletindo luz e sendo os grandes protagonistas da obra de arte.

Como diz o poeta Waly Salomão, “a memória é uma ilha de edição”. E aqui ela está representada nesse quarto escuro labiríntico, onde só revelamos as fotografias que queremos gravar na nossa memória, que queremos salvar na nossa história: corpos inteiros, reais, negros anônimos protagonistas, descendentes de um povo escravizado, brilhando como a luz da lua.

Lívia Uchôa


 
Gostou do Conteúdo? Deixe seu Like


Deixe seu Comentário